O Estudo e a Insígnia da Madeira

O Estudo e a Insígnia da Madeira

Museu de Gilwell Park

             Causa perplexidade e tristeza eventualmente ouvir postulações sobre tentativas de pôr fim na parte do Estudo, também chamado Caderno, da Insígnia da Madeira, da mesma forma como é decepcionante escutar afirmações de outros chefes que cadernos foram aprovados por decurso de prazo, ou seja, o leitor avaliador não o devolveu no tempo regulamentar destinado a avaliação.

            Isto corresponde a eliminar a dissertação dos programas de mestrado, a tese dos doutorados. Sinceramente, em que outro momento um chefe interrompe suas atividades para refletir sobre sua prática, a luz da literatura disponível? E vai mais longe, escrevendo e argumentando suas posições. Sem dúvida é o maior exercício intelectual que o escotismo oferece para aqueles que o desejarem, uma vez que ninguém é obrigado a conquistar a insígnia. Permite ainda a conversa com outros líderes, ampliando a reflexão e a troca de argumentos com o assessor pessoal e o próprio leitor avaliador, embora incógnito, correspondendo a orientação acadêmica do mestre, auxiliando na formação do pensamento crítico.

            Eliminar ou diminuir esta etapa não é surpreendente em um país que tem as piores notas na avaliação de seu ensino magistral e acadêmico, comparado as outras nações. Seria nivelar a intelectualidade por baixo. A pós-graduação realizada fora do Brasil permite a convivência com pessoas de diferentes partes do mundo. Se nós temos parcos conhecimentos sobre Machado de Assis, Castro Alves, Jorge Amado, Érico Veríssimo ou Gonçalves Dias, só como exemplos, os europeus, africanos e asiáticos, estudaram Goethe, Shakespeare, Rimbaud, Sartre, incluindo tantos outros e muitas vezes sabem muito mais de Camões, Fernando Pessoa e José Saramago, que nós brasileiros lusófonos, nos deixando verdadeiramente embaraçados e preferindo falar de futebol. Essa formação cultural ampla deve ser perseguida pelo escotismo brasileiro e entendida como um dos caminhos para o sucesso em nossos grupos.

           Já percebemos uma simplificação na formação do chefe quando um curso intermediário no processo, o Curso Técnico de Ramo (CTR) foi suprimido e se havia conteúdos sobrepostos, a questão talvez fosse reformular as matérias com a inserção de novos tópicos. No escotismo não podemos abrir mão da leitura minuciosa dos textos de Baden-Powell e de tantos outros nacionais como Rubem Süffert. É obrigação estudá-los e discuti-los.

         Comparando com níveis básicos e fundamentais de ensino, é sabido que o jovem brasileiro passa poucas horas na escola, em comparação a outras nações, inclusive latinoamericanas. Como método de educação extraescolar, o escotismo poderia aumentar estas horas de formação despertando novos interesses e habilidades. Todavia, só oferecerá qualidade com chefes preparados. Também poderia se incluir no rol de argumentos a questão da cidadania, da atitude de fazer as coisas certas. A falta destes conceitos, que podem ser bem trabalhados pelo escotismo, que faz com que nossa população faça pichações em sua própria cidade, roube o bronze das praças destruindo monumentos para vender como sucata ou queime as novas lixeiras para material orgânico.

            Queremos aprender menos ainda? O que teremos para ensinar? Se o escotismo é um movimento educacional que objetiva formar líderes, em nenhum momento pode exigir ou cobrar menos de seus próprios chefes que são o exemplo para os jovens. Não se pode ler menos, pensar menos, escrever menos e ainda colher louros deste relaxamento. Em países que tantas vezes são assumidos como modelos em diversas áreas, como os Estados Unidos, a formação do chefe é interminável, porque além da Insígnia da Madeira, existem os Knots Badges, contemplando diferentes áreas de interesse e possibilitando sempre novas conquistas. Não que o modelo deva ser copiado, não queremos é que o nosso seja diminuído, todavia, é inegável a força do Boy Scout of America.

            Se no Brasil enfrentamos dificuldades de crescimento do efetivo escoteiro, com certeza chefes menos preparados, com formação simplificada, não serão a solução para isso. É lugar comum dizer que o progresso depende da educação, portanto o progresso do escotismo também deve estar ancorado neste processo, iniciando pelas suas chefias.

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Escoteiro no Grupo Escoteiro Chama Farroupilha 183 RS.

Posted on 8 de Fevereiro de 2012, in Filosofia do movimento and tagged , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. 1 Comentário.

  1. Freddy Antonio Pinto

    Concordo plenamente com o texto e parabenizo seu autor. Um grande abraço do Ch I.M. Freddy A Pinto.

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