Medalhas e Reconhecimento

 

            No último Congresso Nacional Escoteiro realizado em São Luís, a comissão encarregada de revisar as condecorações escoteiras apresentou o resultado de seu extenso e detalhado trabalho, com a revisão das medalhas existentes, criação de novas comendas e também de outras formas de reconhecimento, como o Pin do Cônjuge.

            Sem dúvida um trabalho de fôlego, que merece elogios e que por várias vezes destaca a preocupação de reconhecer o nível local. Isto atende a grande população dos chefes, pois é no nível local e no interior do país, onde a maioria dos escotistas atua e este é o trabalho mais importante, uma vez que o jovem é a razão de existir do escotismo. Todavia, as condecorações são mais frequentemente destinadas aos chefes ligados aos níveis regional e nacional de administração do escotismo.

            Corrigir este viés era uma questão antiga que precisava ser enfrentada. Contudo outros três pontos permanecem obscuros. O primeiro deles diz respeito a como estas pessoas serão identificadas. Atualmente, é necessário que outra pessoa do grupo escoteiro tenha conhecimento sobre as condecorações e seu processo de concessão e provoque a Comissão Regional para a avaliação do caso. Isto é raro e difícil, muitos diretores e chefes reconhecem o merecimento dos seus colegas de grupo mas desconhecem as condecorações, seus critérios e como solicitá-las. É eticamente inadequado o chefe Mutley, como do desenho animado, que só ajudava o Dick Vigarista em troca de medalhas. Traduzindo, é descabido solicitar uma condecoração para si mesmo. No outro extremo, vemos chefes muito dedicados, que merecem todas as honrarias mas não estão nem um pouco preocupados com elas porque estão envolvidos demais com seus grupos e crianças. Como reconhecê-los ?

            Talvez isto pudesse ser resolvido com uma busca mais ativa pelas Regiões das pessoas merecedoras, quer seja através do SIGUE que hoje possibilita o acesso a vida escoteira, quer seja através da consulta pessoal as diretorias dos grupos que poderiam passar as informações. O maior exemplo é a Medalha de Bons Serviços. Quem de nós não conhece ou teve chefes brilhantes, dedicados, que sustentam seus grupos com trabalho e até dinheiro nos momentos de dificuldade, com muitos anos de dedicação e que nunca foram reconhecidos simplesmente porque seus pares desconhecem os caminhos.

            Esta situação é ainda mais percebida nos grupos do interior, muito próximos de suas comunidades mas distantes das capitais e grandes cidades. Usualmente o trabalho nas comunidades menores é muito bom porque todos se conhecem e se ajudam mutuamente, somando esforços da população para o progresso do grupo. Os chefes funcionam como agregadores e canalizadores dos potenciais locais, formando uma grande rede de contatos, invisível aos Escritórios Regionais. Reforçando este argumento, vejam quantos grupos do interior recebem a distinção Grupo Padrão, comparados proporcionalmente aos grupos dos grandes centros urbanos.

            Isto remete ao segundo ponto que é o critério para a concessão ou não, mas principalmente para a definição do grau da condecoração. Novamente se observam chefes com longas trajetórias e dedicação, que muitas vezes já atuaram em diferentes níveis mas que recebem comendas inferiores, baseadas em parte dos fatos de sua vida, a outros com história mais breve e menos intensa, mas onde seus pares souberam melhor apresentar as razões. Esta é outra situação onde uma breve consulta ao SIGUE ajudará a corrigir as dicotomias.

            A terceira questão é a situação sugerida de vinculação de uma condecoração como sequência da outra. O recém criado Tucano de Prata é destinado a atuação no nível local, onde o pré-requisito é a Cruz de São Jorge há pelo menos cinco anos. Esta foi também ampliada para o nível local, o que é muito bom, mas apresenta como pré-requisito a Medalha de Gratidão grau Ouro há dois anos pelo menos. Aqui o nó se fecha. O Manual é muito explícito nas páginas 10 e 11 ao afirmar que aqueles que atuam no nível local deverão receber o grau bronze. O grau Ouro é destinado para “dirigentes com destacada atuação por mais de duas gestões no nível regional ou nacional, etc”. Então, como o adulto de nível local poderá receber a Cruz de São Jorge e o Tucano de Prata se ele, atuando no nível local, não é elegível para a medalha de Gratidão Ouro, pré-requisito da primeira ?

            O novo manual ajudará muito, mas a subjetividade do processo ainda estará presente e talvez os maiores desafios sejam identificar os merecedores no nível local, de forma proativa, como proposto no novo manual, com a interiorização do processo, verdadeiramente reconhecendo também aqueles que trabalham preferentemente com os jovens, razão de ser do movimento escoteiro. Necessário também será reavaliar a questão da medalha de Gratidão Ouro e sua vinculação com a Cruz de São Jorge para que realmente aconteça a contemplação do nível local. Deverá haver trabalho extra para as Comissões.

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Escoteiro no Grupo Escoteiro Chama Farroupilha 183 RS.

Posted on 4 de Maio de 2012, in Filosofia do movimento, Uncategorized and tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. vitortrotamundo

    Prezado amigo,

    Como fiz parte da Comissão Nacional de Revisão das Condecorações, me presto no dever de esclarecer as dúvidas (muito pertinentes) apresentadas aqui neste post.

    Quanto a identificação das pessoas que merecem reconhecimento, é neste ponto que entra em ação o Manual do Reconhecimento, que possue como objetivo estratégico levar a informação a todos (este é um dos motivos de termos este material a disposição inclusive para download na internet). A idéia é que através da pulverização da informação as pessoas tomem conhecimento deste política e reconheçam quem é merecedor. A política também prevê que qualquer pessoa pode sugerir reconhecimento.

    Quanto ao critério de concessão, especificamente no caso da Medalha de Gratidão – Grau Ouro, o Manual coloca como observação o seguinte: “Dependendo do nível de atuação e da relevância dos serviços prestados, o colaborador poderá ser agraciado diretamente com a Medalha de Gratidão – Grau Ouro, sem a necessidade de ter recebido o grau bronze ou prata anteriormente” Esta regra é válida para todos os níveis (local, Regional e Nacional). Um escotista, com larga atuação no Nível Local e bastante bagagem no Movimento Escoteiro, poderá sim, receber diretamente a Medalha de Gratidão no Grau Ouro.

    No caso específico da Cruz de São Jorge (que era uma medalha mais relacionada a serviços para o Nível Regional e Nacional) esperamos, de fato, que esta condecoração tenha uma maior circulação no Nível Local. Ainda assim, ela é uma condecoração especial e nem todos irão recebê-la.

    Quanto a vincular uma medalha a outra, a ideia era a de deixar o sietam mais criterioso, evitando que num curtíssimo período de tempo um escotista recebesse tudo (o que não era incomum acontecer).

    No mais, era premissa do sistema fazer com que esta política chegasse até a base e que os grupos escoteiros reconhecessem aqueles que prestaram/prestam excelentes serviços a causa escoteira. Tenho certeza de que aos poucos, com a divulgação do material, reconhecer quem merece se tornará um saudável hábito.

    Mais uma vez parabéns pelo blog e me coloco a disposição para sanar outras dúvidas.

    Forte aperto de canhota,

    Vitor

    • Caro Vitor,

      Excelentes considerações. Obrigado pelos esclarecimentos que sem dúvida contribuiram para entender o processo. A participação de alguém que fez parte da Comissão permite compreender como ela pensou, o que é muito bom. Não havia destacado a questão de alguém receber várias condecorações juntas, e que o amigo bem destacou. Sem dúvida isto era muito estranho e os interstícios resolverão este ponto. Sinta-se a vontade para mais comentários e contribuições. Também acho que você está certo ao afirmar que aos poucos a informação chegará na base, graças a publicação do manual no site.
      Parabéns pelo trabalho, este por si só já é digno de reconhecimento.

      Sempre Alerta,

      Maurício

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