Cruz Suástica, um símbolo banido do escotismo

DSCN4452a

A cruz suástica é um símbolo há muito conhecido da humanidade, com registros em cerâmicas de 2 a 3 mil anos antes de Jesus Cristo. Considerado por alguns como místico, já aparece nos povos Celta, Azteca, Hindu, entre tantos outros. Além das religiões, também aparece na arquitetura e nas artes. O termo é derivado do sânscrito e significaria felicidade, prazer e boa sorte, portanto com uma mensagem muito positiva.

Dentre as várias apropriações que Adolf Hitler realizou, esta foi mais uma delas. Promovendo uma angulação, foi adotada como símbolo do Partido Nazista e passou, na história recente, a carregar a associação com toda a situação negativa e coisas ruins promovidas por eles.

Baden-Powell adotou o cruz suástica como mais um dos itens da simbologia escoteira. Representava o sol e era uma condecoração de agradecimento, oferecida inclusive a pessoas de fora do Escotismo que houvessem ajudado o movimento. Apresentavam uma numeração no verso que se repetia e algumas ainda apresentavam as iniciais do pessoa condecorada. O nível Ouro era confeccionado realmente em ouro, embora 9 quilates.

Diante da forte propaganda nazista, o movimento escoteiro não teria como restabelecer a verdade histórica ao público e informar que o símbolo fora utilizado pelo escotismo antes que os nazistas dele se apropriassem. Baden-Powell usou a cruz suástica para representar as quatro partes do mundo, considerando que em todas elas existiam escoteiros. A cruz, para o fundador, representava um símbolo de fraternidade (1).

DSCN4455a

No Brasil, seu uso e concessão aparece ainda na segunda edição (1932) do Guia do Escoteiro, de Benjamim Sodré, pelo menos em duas inserções (3).

Na página 36, se observam duas condecorações oficiais com a presença da suástica. A primeira se chama simplesmente Cruz Suástica e é o modelo fotografado no início deste artigo, mostrado suas duas faces e parte de nossa coleção. Conforme esclarecido aqui, haviam três classes: bronze, prata e ouro. Destinava-se a recompensar serviçoes prestados ao escotismo por pessoas que não fizessem parte dele.

DSCN4837

Na mesma página, mais abaixo, se observa a Medalha de Mérito, concedida a escoteiros e chefes “por atos meritórios ou bons e largos serviços prestados ao escotismo”. A condecoração é de formato circular, com uma cruz suástica ao centro, sobreposta por uma flor-de-lis.

DSCN4844

Todavia, é na página 78 que Benjamin Sodré explica mais detalhadamente o significado do símbolo e qual as relações que Baden-Powell fez para a sua adoção no escotismo. Ele destaca que se trata de uma distinção concedida a pessoas que prestam serviços ao movimento escoteiro, devendo seus membros, ao verem um portador desta honraria, imediatamente oferecer seus préstimos. Também descreve, entre outros atributos, que é um símbolo de fraternidade.

DSCN4845

Devido àquela apropriação nazista, ela precisou ser rapidamente removida do escotismo, para evitar a associação com o nazismo, virando parte da história do movimento escoteiro. Foi descontinuada sua produção como condecoração aproximadamente em 1935. Os modelos sem estrelas na flor-de-lís (como este das fotos iniciais aqui apresentadas) são mais antigos e a produção iniciou aproximadamente em 1910.

As restrições colocadas pelo Estado Novo (1937-1945) durante a ditadura de Getúlio Vargas, impunha a condição de “súditos do Eixo” e inimigos do Brasil, após 1942, quando o país declarou guerra contra a Alemanha, Itália e Japão, para aqueles que descumprissem as regras. Estas incluiam a proibição de falar alemão em público e a obrigação de comunicar a polícia encontros e reuniões ou qualquer outra forma de reconhecimento e identificação com o nazismo (2).

Paralelamente, o governo planejava criar a Juventude Estatal Brasileira, para cultivar o bom nacionalismo, onde todas as crianças  de escola deveriam participar, exceção feita pela lei àquelas crianças que participassem do Escotismo (2).

Historicamente, este é um breve registro de um importante símbolo da mística escoteira, pertencente aos primórdios da organização, que precisou ser retirado do escotismo, mas não completamente apagado da memória do movimento.

Le livre des louvet eaux

Edição francesa do “Livro do Lobinho”, com a cruz suástica na capa. Imagem da internet.

Referências:

1 – Mindlin, José, Avanhandava -A construção de um projeto para a juventude, Cap. 2, ed. CIP, 216p., 1999.

2 – Nascimento, Jorge Carvalho, A escola de Baden-Powell, Cap. 4 O escotismo de estado, ed Imago, 352p., 2008

3 – Sodré, Benjamin, Guia do Escoteiro, Imprensa Naval, 2 ed, 1932.

About mrvolkweis

Escoteiro no Grupo Escoteiro Chama Farroupilha 183 RS.

Posted on 8 de Março de 2013, in Histórias do Escotismo and tagged , , , , , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. 4 comentários.

  1. Carlos Eduardo Bittencourt Poetzscher Lobo Pires

    Excelente postagem. Muito informativa e de grande valor.

  2. Exelente material para pesquisa, obrigado por compartilhar essas informações conosco.
    Att. Rafael Luiz Ferreira
    Colecionador Escoteiro – CoBras 353/08-SC

  3. muito boa! um pedaço da historia q não sabia!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: